A escola do silêncio: acídia e contemplação

Trata-se de analisar o silêncio no âmbito da dialética benjaminiana, da lógica dos duplos temporais. Da arrogância da modernidade capitalista, fundada na onipotência da Vontade, na aceleração do tempo ao ideal da justa vida e do bem viver, são monges e mosteiros que constituem uma cultura de resistência no exercício da contemplação. No horizonte da tirania da visibilidade que constrange à exibição de si através de opiniões tornadas sempre mais públicas, essa parrhesia moderna participa da cultura do excesso e da saturação do pensamento, que prescinde de fundamentação. Diferente de uma arte de calar, o silêncio como silere e não tacere se encontra no filme O Grande silêncio (2005) de Philip Gröning que retrata a solidão e o silêncio dos monges no claustro construído no alto da montanha: o Mosteiro la grande chartreuse, ordem fundada em 1084, em Grenoble, na França. Da acídia medieval ao recolhimento moderno, a duração de um tempo em que o antigo e o moderno não se excluem, é a vida do Espírito que se presentifica em meio às convuslões das ruínas deixadas pelas mercadorias, as do século 17 e as guerras de religião, as do século 21 e suas guerras teológico-políticas. Do logos
subjetivo ao logos divino, uma contemplação laicizada se encontra na idéia de “Vexierbild” benjaminiano, no extremo do ser e do nada, entre a comunidade e sua impossibilidade.
Na antinomia entre o comum e o próprio, o rumor da praça pública e a solidão da subjetividade, o silêncio testemunha uma pausa, na contramão da ideologia hedonista e hiperativa da modernidade que, do excesso,conduz à angústia da saturação do tempo.